quinta-feira, 26 de junho de 2014

"Uma passeata pelo norte alentejano"

Hoje tinha planeado ir dar uma volta campestre com o Vasco Soares.
Entretanto o Jorge Palma, também com um tempinho livre, tencionava ir dar uma volta asfáltica.
Como somos malta democrática, (politica à parte) fomos pela asfáltica, pois o Jorge presentemente não tem bike campestre.
Combinámos encontrar-nos pelas 07h30 na padaria do Montalvão e ali tomámos o primeiro cafezinho matinal.
A voltinha de hoje, estava programada para uma ida até ao Alto Alentejo, aqui logo a seguir ao nosso "quintal".
Antes de partirmos, ainda encontramos o Luís Lourenço que devia vir do "choco", pois ainda não trazia as "persianas" bem abertas e ia também tomar o cafezinho.
Abandonamos a cidade pelo IP2 e por ele pedalamos até Alvaiade, com passagem pelo nó das Sarnadas.
Descemos a Vila Velha de Rodão pela variante e, como não podia deixar de ser, fomos em busca das bolinhas de berlim na Padaria Rodense.
Mas chegamos cedo demais, pois ainda não tinham saído e a espera era um pouco demorada.
Lá nos contentámos com outras doçarias, a acompanhar o segundo cafezinho do dia.
Passamos a ponte sobre o Rio Tejo contemplando aquele belo "painel" das Portas de Rodão, sempre espetacular!
Depois da subida e a meio da descida à Ribeira de Nisa, viramos à esquerda para a Vinagra e Pé da Serra.
Uma bonita estradinha panorâmica, entre serranias, onde dá gosto pedalar. O trânsito é escasso e sendo estreita, sentimo-nos como se pedalássemos numa ciclovia natural.
À saída de S. Simão, fletimos para a direita e por outra estradinha, ainda mais estreita e de singela beleza, continuámos em direção a Nisa, com paragem na ponte, de novo sobre a Ribeira de Nisa, coberta de plâncton verde, ou o que quer que fosse, criando uma paisagem espetacular.
Subimos a Nisa e paramos na esplanada da praça principal, para uma bjeca fresquinha e dois dedos e conversa.
Já estávamos com o azimute virado à cidade e rumámos a Vila Velha de Rodão, parando na fonte antes da casa dos cantoneiros para atestar bidons.
Passamos Vila Velha e seguimos pela N18, com passagem pelo Coxerro, para entroncarmos depois de novo no IP2, que seguimos até à cidade, depois de 112 kms pedalados numa bela manhã, em bom convívio e sã camaradagem.
Uma última paragem na Cruz de Montalvão, para mais uma bjeca fresquinha e acabarmos de por a conversa em dia, calmamente e sem stress, pois . . . "viver é a coisa mais rara do mundo, a maioria das pessoas apenas existe" (Oscar Wilde)
 
Fiquem bem.
Vêmo-nos nos trilhos, ou fora deles.
AC

quarta-feira, 25 de junho de 2014

"De Betanzos a Santiago de Compostela.

Como era nosso apanágio, saímos cedo do albergue e preparámos as bikes que tinham ficado aconchegadas no hall de entrada do albergue.
Já no exterior, colocámos os alforges e oleamos correntes. estávamos preparados para cumprir o último dia de aventura e os derradeiros 75 kms que nos separavam de Santiago de Compostela, de onde tínhamos partido há exatamente cinco dias.
Descemos à ainda tranquila Praza Garcia Hermanos e procurámos um bar para tomar a primeira refeição do dia.
Foi numa das esquinas da citada praça que encontrámos o único bar aberto, onde "desayunamos" o de quase sempre . . . "café com leche e tostada com mantequilla e marmelada"
Abandonámos aquela bonita cidade e tomámos a direção de Bruma, seguindo rigorosamente as indicações do caminho, apesar de levarmos o track inserido nos nossos gps.
Num percurso muito variado, em termos de paisagens e trilhos, passámos por Reguán, A Fraga Barral, Meangos e Villacobos, onde após uma bonita descida a rasgar o bonito bosque verdejante, entrámos em asfalto, para dar início à grande dificuldade do dia com uma terrível subida de 4 kms, que começou em asfalto e com uma breve passagem a estradão, estreitou-se e transformou-se num formoso single track, de considerável inclinação, pondo à prova a nossa capacidade física.
Um esforço tremendo e a satisfação do nosso "ego" de conseguir tal feito. O meu cérebro quase que entrou em conflito e já hà muito tempo que não punha deste modo á prova, a minha capacidade de sofrimento. Empurrar a bicicleta não teria feito muita diferença, em termos de esforço, penso eu!
A chegada a Vizoño amenizou este sofrimento e o bocadillo de tortilla francesa e o par de cañas que "aconchegá-nos" no Bar Julia, em Villacobos, foi quase uma premonição do que nos esperava.
Seguiu-se A Ribela e A Malata antes de chegarmos ao Hospital de Bruma, onde se encontra o albergue de peregrinos, onde paramos para descansar um pouco e atestar bidons no fontanário do jardim.
Tivemos ainda que ultrapassar uma outra subida, também ela de acentuada pendente, conhecida por "matacaballos", mas bastante mais sofrível.
Continuamos a reduzir kms em direção a Santiago e O Seixo e Cabeza de Lobo ficaram para trás.
Tinhamos chegado a O Castro, um peculiar lugarejo, pejado de figuras petrificadas rodeando a estrada. Por ali nos entretivemos um pouco dando clics com as nossas digitais.
O Caminho Inglês é de todos os caminhos, o menos conhecido.
Consequentemente o menos frequentado.
Recheado de single tracks e zonas muito divertidas, foi para nós, enquanto betêtistas, uma maravilha, pedalar pelos belos recantos que encontramos neste caminho.
Continuámos a nossa aproximação à Plaza do Obradoiro, passando por A Carreira, As Mamoas, O Porto, A Carballeira, A Rua, Vilariño, O Outeiro, Blanca, sempre com passagens encantadoras em bonitos bosques e trilhos espetaculares, separados aqui e ali por algumas passagens em asfalto.
A Saura, A Calle e Baxoia, foram as localidades que nos separaram de Sigueiro, a maior deste percurso.
Passamos anda por O Barral, antes de entrar no Polígono Industrial do Tambre e logo Santiago de Compostela.
A chegada foi motivo de alegria. Tínhamos conseguido terminar a nossa aventura e as nossas bocas expressavam um sorriso quase de orelha a orelha.
Tudo correra perfeitamente, sem grandes preparações nem complicada logística.
Pensámos, escolhemos a data, carregámos os alforges com o que considerámos necessário e vamos a isso.
uma média de100 kms dirários era absolutamente necessário para cumprir o objetivo, pois o tempo era limitado, para cumprir os 491 kms do percurso.
O nosso lema, simples como nós, era comer quando considerássemos ter chegado a hora, e arranjar dormida quando o dia quando se aproximasse do ocaso. Simples e neste caso eficaz. Tínhamos o cérebro livre de apontamentos, esquemas e diagramas, contas e relatos de outros aventureiros, livros e mapas. etc.
Tínhamos espaço para nos dedicarmos a esta nossa aventura desfrutando em pleno, adiando alguma preocupação apenas para o final do dia quando tivéssemos que procurar alojamento. Tudo correu dentro das nossas expetativas!
A apontar algo, apenas a corrente partida na bicicleta do meu irmão Luís, no dia anterior, prontamente resolvido.
A chegada à Plaza do Obradoiro, onde já tantas vezes cheguei em múltiplas circunstâncias, sempre me emociona um pouco. É um local com uma mística que não sei explicar, nem tão pouco definir como me sinto nessa altura. É quase uma sensação de leveza, uma bênção para os olhos, e desta vez, quase uma sensação de dever cumprido.
Depois das fotos da praxe, fomos carimbar a credencial, não que fossemos adeptos da "cartolina" pois a nós não nos diz nada de especial, mas porque a levámos, precavendo-nos para a eventualidade de termos de dormir nalgum albergue municipal, ou ainda, para beneficiarmos do melhor preço nas refeições do menu do peregrino.
Fomos depois assentar arraial num dos bares peculiares das ruelas junto à catedral e fomos despedirnos dos bocadillos e das cañas.
Não nos podíamos esquecer dos "regalos" para as Marias, e nesse aspeto, nada melhor do que adoçar-lhes a boca com umas belas tartes de amêndoa de santiago .
Um último olhar por aquele magnifico local, tornámos a montar as bicicletas e tomarmos a direção da Residencial Via Lucis, onde tínhamos deixado a viatura, por gentileza da responsável daquela unidade hoteleira.
Arrumámos tudo na carrinha e regressámos a Portugal, não sem antes irmos de novo fazer uma visitinha à Dona Júlia, em Chaves, para uma bela janta à portuguesa, agora bem regada com um belo jarrinho do belo vinho da região a acompanhar bacalhau à casa, uma especialidade da Dona Júlia, e que para nós, foi mesmo especial.
Chegámos já depois da meia noite e o calor das nossas caminhas, conjugado com o cansaço de meio dia a andar de bicicleta e outro a andar de carro, adiaram a retrospetiva do que fora a nossa aventura, para os dias seguintes.
Diz-se que todos os caminhos vão dar a Roma, mas neste caso, todos os caminhos vão dar a Santiago.
Sobre o caminho Inglês:-
Pela sua situação estratégica, Ferrol e A Coruña são os pontos de partida das duas alternativas do Caminho Inglês. O primeiro itinerário marítimo conhecido, escrito entre 1154 e 1159 pelo monge islandês Nicolás Bergsson, descreve a viagem desde Islândia até Dinamarca, e a pé até Roma. Esta rota marítima seguiram-na os islandeses e escandinavos que peregrinaram a Santiago.
Durante o S. XIV e o primeiro terço do XV, os britânicos empregaram o barco para vir a Santiago. A sua presença está de sobra provada com as peças de cerâmica e numismática inglesas da época achadas nas escavações da catedral compostelana.
As oferendas ao Apóstolo são outra pegada da existência das peregrinações marítimas, a mais célebre é o retábulo portátil de alabastro doado em 1456 pelo clérigo John Goodyear; ou a Cruz de perlas doada pelo rei Xacobe IV de Escócia (1475-1513).
Os peregrinos contaram com os hospitais da Ordem franciscana do Sancti Spiritus, sob os auspícios do nobre Fernán Pérez de Andrade, "O Bo". No troço que parte de Ferrol situavam-se em Ferrol, Neda, Miño, Paderne e Betanzos. Na rota que parte da Coruña contavam com hospitais na cidade e com os de Sigrás e O Poulo, a medida que avançavam. Os arquivos destes hospitais dão notícia de defunções de ingleses, nórdicos, alemães, franceses e italianos, um dado mais que demonstra a relevância das peregrinações por esta rota.

Fiquem bem.
Vemo-nos nos trilhos, ou fora deles.
AC

terça-feira, 24 de junho de 2014

"Pela Foz do Cobrão"

Contrariando as previsões meteorológicas para hoje, eu, o Jorge Palma e o Vasco Soares, acertámos ir passear as nossas "delgadinhas" por um percurso que, no nosso entender, privilegiasse a vertente paisagística, pois gostamos de ir pedalando, conversando e convivendo, absorvendo o que nos rodeia, na maior parte das vezes.
Abandonámos a cidade, com algum frio e uma preocupante neblina que se se abatia para a zona do Ponsul, para onde pretendíamos ir.
Mas foi uma preocupação, que não chegou a preocupar. Após a descida do "Puerto de los Gitanos", onde ainda há pouco tempo os "KOMistas" cá do burgo se torciam, com esgares de quem não gosta da sopa, a ver quem era o melhor cá da "aldeia", o nevoeiro praticamente desapareceu, mostrando um dia algo nubloso e pouco soleado, mas o ideal para um bom par de pedaladas.
Descemos à ponte sobre o rio Ponsul, onde não consigo deixar de mandar um olhar algo melancólico sobre aquela bonita ponte de traça medieval, que pacientemente aguarda um reparo das autoridades competentes, para voltar a mostrar toda sua beleza e esplendor.
Sempre pedalando descontraidamente seguimos para os Lentiscais, uma aldeia da freguesia de Castelo Branco, onde habitualmente costumamos parar para o cafezinho matinal, não sendo hoje contemplada, pois tínhamos já outros planos nesse sentido.
Descemos de novo ao Rio Ponsul, agora em direção a Alfrívida, com paragem sobre a ponte para apreciar o novo cais, do barco que faz o percurso turístico até Cedillo.
Passámos Alfrívida e Perais, para mais à frente após passarmos a Ribeira do Lucriz, entroncarmos na N.18, rumo a Vila Velha de Rodão.
A Bolaria Rodense e os seus apreciados bolinhos quentinhos, são já uma obrigatoriedade de paragem para a maioria da malta que passa pela vila pedalando.
Hoje foi o dia da bola de berlim, com exceção para o Jorge, que dá mais importância à área do produto, que ao seu recheio e formato.
Fomos de novo subir ao cruzamento para o Rei Wamba, pela bonita estradinha panorâmica, ficando mais uma vez adiada a visita àquela altaneira atalaia.
Contentamo-nos com a bonita visão sobre Aldeia Ruiva, enquanto descíamos em direção ao Perdigão.
Aqui seguimos em frente, para uns kms mais à frente virarmos para a estrada que acompanha o Rio Ocreza até à bonita aldeia da Foz do Cobrão, situada no sopé da encosta oeste da Serra das Talhadas, na margem esquerda do Rio Ocreza
"À margem esquerda do Ocreza aflui a ribeira do Cobrão. Foi aí que nasceu a antiga povoação que mais tarde subiu encosta acima, fixando-se num local de magníficas paisagens. A brancura das suas casas e as pinturas dos socos dá a entender a proximidade do Alto Alentejo. A crista quartzítica da serra das Sarnadas emoldura-a e abriga grifos e cegonhas-negras que, lá do alto, observam rochas com cerca de 500 milhões de anos marcadas pela ondulação e pelos fósseis de um oceano que já não é. O Rio Ocreza espelha-se a seus pés antes de galgar o açude construído há anos." (in Memória Portuguesa)

Cruzámos a aldeia pelas suas estreitas ruas de acentuada pendente e continuámos em suave ascensão pelo também bonito Vale do Cobrão, até chegarmos ao velho IP2, que nos levou até Castelo Branco, de onde havíamos partido umas horas antes.
Foi uma simpática manhã de pedalada, na agradável companhia do Jorge e do Vasco, que culminou com 95 kms, em boa harmonia e sã camaradagem.
 
Fiquem bem.
Vêmo-nos nos trilhos, ou fora deles
AC